Tenho 53 anos. Sei tudo o quanto vivi até aqui. Daqui para frente, só Deus sabe...
Ainda assim, espero viver muitos anos. Continuar como até aqui: presente, inteira, a acompanhar e a apoiar a minha família mais próxima. Ver crescer a minha filha — a minha maior fonte de orgulho. Seguir o meu caminho, o meu trabalho, as minhas viagens. Continuar a viver esta vida serena e tranquila que tanto prezo.
Mas não me iludo. Sei que a vida, tal como até aqui aconteceu, vai trazer-me dissabores. Eu e as minhas irmãs estamos a envelhecer, meus tios e tias já quase todos partiram desta vida, meus pais já cá não estão também…
Então eu sei que a vida não é um mar de rosas, que ela tem os seus espinhos e temos de saber lidar com eles e avançar. Avançar até que um dia, inevitavelmente, tocar a mim enfrentar as consequências do envelhecimento. Talvez a demência. Talvez uma doença grave. Não sei. O que sei é que todos, sem exceção, temos um fim.
Hoje, às vésperas de fazer mais uma daquelas viagens do meu “bucket list”, uma das mais importantes, coincidindo com uma situação familiar de um colega de trabalho, levou-me a pensar num futuro plausível, onde eu, envelhecida, dependo de cuidados permanentes. E, mais do que isso, no impacto que isso teria na vida da minha filha — que, com menos 30 anos do que eu, está a construir, com tanto esforço, o seu próprio caminho.
Eu cuidei do meu pai, até ao fim, mesmo ele não merecendo, pelas atitudes demasiado incorretas para comigo e para com as minhas irmãs. Fiz o que considerei ser correto, e apesar da sua maldade, não lhe faltou os cuidados e carinho.
O que farei então, se um dia, deixar de andar, e precisar de cuidados continuados por 24h? Terei eu o direito de obrigar a minha filha a largar tudo para cuidar de mim? Existe de facto essa divida moral, só porque cuidei dela em bebé? E até onde vai essa divida moral?
Ouvi opiniões diferentes, conversei, refleti. Cada um vê a situação à sua maneira, moldado pelas suas crenças e experiências. E é assim que deve ser. Não temos o direito de impor a nossa visão aos outros. Silenciosamente e na minha mente, enquanto ouvia as diversas opiniões, percebi que eu já tomara uma decisão.
Sendo a mulher lógica que sou e com os pés bem assentes na terra, a guerreira que me tornei, pelos abalos da vida, não iria deixar que a vida retire a minha dignidade. O último e derradeiro ato é dizer à vida que é a mim e somente a mim, quem pertence a decisão. Mesmo sendo essa opinião, contrária a todos os outros, mesmo sendo ela errada aos olhos de muitos.
Sou lutadora por natureza. Tenho uma personalidade forte — e orgulho-me disso. Mas também sou sensata e humilde. E é nesse equilíbrio que me encontro.
Esta reflexão trouxe-me paz. A certeza de que não colocarei a minha filha perante uma escolha impossível. De que não permitirei transformar-me numa existência sem vida, dependente, reduzida a uma lenta despedida. Nem mesmo na esperança de encontrar um lugar onde me tratem com dignidade — algo que, no mundo de hoje, nem sempre é garantido. A Deus, tenho apenas gratidão pela vida que me concedeu.
Mas o último ato de liberdade será o meu.



