domingo, 16 de fevereiro de 2025

As mentiras que contamos a nós mesmos

Podia ter sido sincero e dizer a verdade. Eu estava assustado e com medo da solidão. Ao mesmo tempo, eu já não gostava das minhas filhas. Elas e a mãe tinham um relacionamento que eu jamais tive com elas ou poderia ter e isso assustava-me no inicio. Com o tempo virou ressentimento e no fim, não restava já nada. Quando a mãe morreu, eu só queria sair dali. Gritar já não ajudava e eu era o homem da casa. Tinham de fazer o que eu dizia. E assim fizeram. Respeitaram-me como sempre respeitaram e aceitaram as minhas decisões, como sempre aceitaram, mesmo que as magoasse. Mesmo que eu estivesse literalmente a cuspir nas suas caras!

Mas sair dali não iria ajudar! Os problemas iriam comigo e eu só iria adiar o inevitável. Então tomei aquela que foi para mim a pior decisão da minha vida. E com isto, arrastei para uma guerra, quem eu na verdade mais amava, mas que mentia para mim mesmo que não. E porquê? Porque tinha ciúmes do relacionamento e do amor que elas nutriam pela mãe e porque sempre achei que não o tinham por mim...como eu estava errado!

Que mentiras disse a mim mesmo para tornar o inaceitável, aceitável! Que mentiras deixei que me colocassem na mente, para afastar quem na verdade me via como um herói! Eu sei...eu hoje sei. Eu era o vosso herói!

E agora, resta a dor que eu causei. A indiferença de toda esta realidade que ficou a minha vida e o que eu deixei para trás.

Pedir-vos perdão não chega minhas pequenas, minhas queridas filhas. Eu teria de voltar atrás no tempo e não deixar que a minha mente ficasse parada no único pensamento que nutria, dia após dia e que me arruinou. Eu deveria ter falado com vocês. Eu deveria ter agido, ter tido a coragem suficiente para enfrentar a minha solidão sozinho. Eu deveria ter sido vosso pai até ao fim, mas na verdade, deixei que as mentiras que eu contava a mim mesmo vencessem e no fim, mesmo eu não merecendo, com o vosso amor, provaram-me de que apesar de tudo, da dor que vos causei, e da merda da guerra que vos ia deixar como herança, eu continuava a ser o vosso herói.


E hoje, eu sei, minhas querias filhas, que vocês foram o que de melhor eu tive da vida. Vocês e a vossa mãe. Gostava de poder dizer-vos isto frente a frente, mas já não posso mais e a cobardia levou o melhor de mim. 

Não espero o vosso perdão, e peço a Deus, todos os dias, que vos ajude nesta guerra injusta que vos coloquei e que no fim, seja feita justiça. Porque vocês lutam pelo amor da nossa família e do vosso porto de abrigo que eu construi para vocês as três e a vossa mãe. Não foi para mais ninguém! Os outros merdas, os oportunistas, só agem por vingança. E quem semeia ventos...

Filhas, vocês são a minha luz, eu cuidei das três com amor e carinho, dentro do que eu sabia poder vos dar. Lembrem-se de mim, pelas coisas boas e perdoem-me pelas más...se o vosso coração vos permitir!

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

Tu és a razão

O ser mais doce que este mundo já produziu. O teu ar sereno, as tuas doces palavras, o teu aconchego. 

Teu abraço, quando as lágrimas teimavam cair e o coração doía para além da razão. Se eu pudesse voltar o tempo atrás, iria certificar que a luz voltasse e levasse a escuridão que a tua morte trouxe. Porque tu querida mãe, és a razão de tudo. És o hipocentro. A cola que une. Nunca o vazio sairá daqui e por mais que se tente, a dor é permanente. Não temos mais teus braços para curar o que esta partido. Tua memoria perdurará para sempre em nós, tuas filhas e em teus netos. Porque o mundo irá saber, querida mãe, que tu és a razão. Que és, a força da natureza. Ainda que, fisicamente já cá não estejas!





terça-feira, 8 de outubro de 2024

O Negócio

Quase cai da cadeira, quando aquele miserável me pediu em casamento. Afinal o meu plano estava a correr na perfeição. O facto da esposa deste individuo ter morrido há apenas seis meses, facilitou o meu processo. 

Fui para casa contente, liguei aos meus três filhos assoberbada. Fazemos tudo em comum e quando lhes contei que aquele palerma, sedento de companhia, estava disposto a casar sem fazer qualquer tipo de salvaguarda de património e restantes bens, foi ouro sobre azul. Meu filho fez umas quantas pesquisas, e no fim passou-me a informação de que seria um bom investimento meu, seguir com o casamento e ao fim de três semanas, desde o pedido, acabei com o sofrimento daquele infeliz, aceitando a proposta. 

Casamos quase um ano após a morte da falecida. As filhas do meu agora "marido", iriam dar-me luta, pois não gostaram de mim desde inicio, mas eu já tinha o que queria e elas eram merda nesta equação. A primeira coisa que tive de fazer foi afasta-las da vida do pai, o que nem foi grande sacrifício. O casamento em si, já dera a primeira facada na relação deles, mas como o amor e sangue que os une era mais forte do que pensava, remove-las seria mais sensato para mim. Consegui essa proeza com um simples golpe. 

Dividir para reinar e reinar eu iria. Deixaram de falar com o pai. Com isso, e com a demência que se abateu ao velho, consegui sacar o dinheiro todo da conta, uma vez que, por minha sugestão, abrimos uma conta solidaria. Nem precisei da assinatura do mono para lhe sacar todas as economias de uma vida inteira de trabalho, fora o dinheiro que recebera do seguro de vida da falecida, que tecnicamente seria também das filhas, mas que, com o afastamento delas, nunca se veio a realizar a partilha, e como o velho estava já demente, não havia mais obstáculo algum. Era só dinheiro a cair na minha conta!

No inicio deste ano este merdas morreu, abençoado sal que lhe fui dando em poucas doses, mas que com o tempo o "arrumou" de vez. Já sabia que teria de voltar a lidar com as filhas dele, por questões da herança, mas como estes três tristes seres, perderam a mãe, depois o pai, a casa de família era o único bem que lhes restava e iriam pagar-me o que eu pedisse para sair e assim foi. A chantagem e pressão exercidas nestas três idiotas durante alguns meses, foi o suficiente para cederem e pagaram tudo o quanto lhes pedi.

Pelo caminho deixei-lhes uma casa destruída, suja, cheia de lixo para limpar e muitas obras para recuperar a gloria que a casa tinha quando a mãe delas morreu. Bem feita! Quem manda terem sido uma família unida e feliz! A felicidade tem um preço demasiado alto, não sabem disso? Agora tem de pagar!  E no meu caso, pagaram!

Agora vou tranquila (porque só pesa na consciência, quando se a tem) para a minha vida. Aguentei todos aqueles anos a viver com aquele mono, nojento, céus, o quanto lhe tinha asco, só a pensar no dia em que iria receber o meu dinheiro, afinal este casamento não tinha passado de um negócio para mim. Vi a oportunidade e agarrei-a com unhas e dentes!

Investi meu tempo, para agora colher os frutos. Vou de férias, gozar a vida! Tenho dinheiro suficiente para mim, e para meus três filhos, para além de que estou a receber pensão de viuvez de Portugal e da Suíça, graças ao meu "marido". Tudo junto, tenho agora um rendimento mensal de invejar a muitos ricos e sem fazer absolutamente nada. 

Pena que, agora estou com 73 anos e já me começam a limitar alguns movimentos, mas se um outro idiota aparecer, se calhar ainda irei a tempo de aplicar o golpe uma vez mais, afinal o dinheiro nunca é demais! E eu sou somente uma velhinha indefesa!

segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

Lembra-te de mim

Guarda-me nas tuas memórias. Acolhe-me nos teus braços serenos com carinho. Eu sou a estrela que contínua a brilhar alto no céu, e que de manhã se transforma no sol nascente. Contínua a contar a minha historia e eu viverei para sempre. Lembra-te de mim.

Lembra-te do carinho quando te peguei no colo. Lembra-te quando passei minha mão no teu cabelo para te acalmar e com meu lábios beijei tua testa. Lembra-te que com minha voz ofereci-te palavras de amor. Lembra-te de mim, para que na verdade eu nunca morra e em ti continue a viver para sempre. 

Ouve a minha voz para além dos céus, na eternidade, porque estarei sempre a olhar por ti.

Lembra-te de mim...



domingo, 18 de fevereiro de 2024

O dia em que fiquei orfão

No dia 31 de Janeiro, pelas 12h, teu corpo cedeu à morte e serenamente ela veio buscar-te! Não estás mais aqui connosco querido pai e a dor de te perder foi imensa...ainda é imensa.

Tal como aconteceu com a mãe, vamos aprender a lidar com a tua ausência. Vamos chorar, desesperar, mas a vida vai seguir, de uma forma ou de outra. Já o vazio...esse fica aqui connosco, sempre.

Foste para o lado da mãe. Estás com ela agora, pelo menos alegra meu coração pensar que sim. Provavelmente nesta altura, já te terá perdoado pelo que também a ela fizeste. E provavelmente está ao teu lado torcendo para que consigamos resolver o problema grande e grave que nos deixaste.

Eu estou a tentar fazer as coisas com calma e não sentir medo. Sinto-me como um capitão e acredito que o que virá pela frente, ou nos destrói, ou nos leva à vitória. Estamos nas mãos de Deus e nas mãos da lei portuguesa, que não apoio os justos e dá cegamente aos oportunistas e parasitas, que se disfarçaram de esposas. Quando na verdade são demónios, adamastores.

Eu fiz uma promessa à mãe e antes de fecharem o teu caixão, eu fiz uma promessa a ti querido pai e vou levá-la até ao fim. Eu vou lutar para que a injustiça não prevaleça e para que,  o que em família, juntos, contruímos, não pare nas mãos dos parasitas.

Que Deus nos ajude e que os tenha, querido pai e querida mãezinha, junto a ele, para a eternidade.

Hoje sou uma filha, sem meus pais presentes...hoje sou orfão...


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Eu perdoo-te...

Hoje não acordei sendo eu, quem acordou foi uma espécie de zombie de mim…

Foi um zombie que se levantou da cama e se preparou para mais um dia. A verdade é que não me sinto eu e atrevo-me a dizer que nem sequer sinto o que quer que seja, pois estou apática. A alma abandonou o meu corpo e agora estou em modo automático…

Não sei o que virá daqui e sinceramente não espero o melhor. Se conseguires sair desta, será por um milagre e aí passarei a acreditar que Deus está do nosso lado…porque por agora o diabo vence…

Estás hospitalizado, com um prognóstico reservado e é impossível definir qual será o desfecho. E quando olho para ti pai, frágil, impotente, desligado já do mundo que te rodeia, assusta-me pensar no pior…

Eu perdoo-te…já te tinha perdoado muito antes de tudo isto, mas só agora meu coração cedeu e aceitou que o teu perdão já existia desde sempre. Como não poderia? És nosso pai e apesar de toda a mágoa e dor que nos causaste não poderei guardar no meu coração raiva e rancor contra ti. És nosso pai…

Eu perdoo-te também por mim, porque o negro que trouxeste para nossa vida, já nos consumiu demasiado e a nossa luta diária é contra algo sobrenatural e desumano. É a nossa cruz… mas como poderei continuar presa a um sentimento negativo contra ti? Teria de ser pior do que tu foste connosco.

Agora, a desilusão que causaste, essa não vou fingir sequer que não está aqui comigo, porque está e estará. Cada convívio, cada pensamento, cada movimento, mostra o quanto uma simples decisão infeliz do teu lado, trouxe dor, medo, profunda tristeza e uma enorme injustiça. Como não poderei estar desiludida contigo pai, se trouxeste o demónio para dentro de casa?

Se ganhamos pequenas batalhas…não, deixa-me te dizer que não ganhamos nada. Porque a bem da verdade quem ganhou foi esse demónio que vive no nosso lar. Tudo o que foi feito e pensado, foi sempre com o objetivo de favorecer o demónio e as pequenas batalhas que ilusoriamente pensámos ter ganho, são na verdade vitórias dela. Ela sempre esteve três, quatro passos à frente de nós e o tempo todo no controle. Desde que a colocaste lá em casa, nós não tivemos, nem temos mais chance…

Toda uma vida a teu lado, mais de 40 anos sendo uma família, e tu deixaste tudo fugir no
vento, como cinzas que desaparecem no ar. Não restou nada. Só dor, profunda tristeza e lamento…

Agora estás no limbo e arrastas-nos também contigo. E se por caso tudo terminar brevemente, sais do limbo para o descanso eterno, mas nós, tuas filhas, sangue do teu sangue, saímos para a guerra. Guerra que não pedimos, que não queremos, mas que eventualmente virá, por causa de uma simples decisão tua…uma simples decisão…mas eu perdoo-te pai! Se tiveres de ir, vai em paz… e que Deus nos ajude!

domingo, 6 de novembro de 2022

Há espera de quê?

Vivi até hoje sempre à espera de algo... que o inverno desse lugar à primavera. Que saísse daquele emprego para outro. Que largasse aquele casamento para a liberdade. Mas na verdade de que andava eu há espera? Do que ainda aguardo eu? Parece que ando sempre em busca de algo que nunca alcanço.

E o tempo passou. Estou com 48 anos e continuo há espera de algo. Do que vem a seguir. 

Estranha forma de vida, só agora reconheço. Hoje a ficha caiu finalmente. O que espero eu encontrar num futuro? Não há nada no fim da linha. Só a morte. Então porque contínuo nesta angústia da espera?

Sempre a aguardar algo que parece que não vem. E os anos passam... Que vida vivi até aqui? Como investi meu tempo neste planeta? De que forma contribui para um bem maior? Que marca deixo? 

Abelhinha trabalhadora que segue as outras operarias. Que se levanta de manhã para fazer nada de importante. Nada de significativo. Não vou curar ninguém. Não vou descobrir a cura do cancro. Não vou eliminar a fome do planeta e nem sequer vou acabar com o crime e a violência da sociedade. Sigo os outros na enxurrada, que como zombies seguem o que está programado, para ter algum dinheiro no final do mês e pagar contas... e é isto? Vou continuar o resto do meu tempo a viver como um zombie? 

Há espera, há espera, há espera...

Quando é que é suposto eu acordar?

As mentiras que contamos a nós mesmos

Podia ter sido sincero e dizer a verdade. Eu estava assustado e com medo da solidão. Ao mesmo tempo, eu já não gostava das minhas filhas. El...