Podia ter sido sincero e dizer a verdade. Eu estava assustado e com medo da solidão. Ao mesmo tempo, eu já não gostava das minhas filhas. Elas e a mãe tinham um relacionamento que eu jamais tive com elas ou poderia ter e isso assustava-me no inicio. Com o tempo virou ressentimento e no fim, não restava já nada. Quando a mãe morreu, eu só queria sair dali. Gritar já não ajudava e eu era o homem da casa. Tinham de fazer o que eu dizia. E assim fizeram. Respeitaram-me como sempre respeitaram e aceitaram as minhas decisões, como sempre aceitaram, mesmo que as magoasse. Mesmo que eu estivesse literalmente a cuspir nas suas caras!
Mas sair dali não iria ajudar! Os problemas iriam comigo e eu só iria adiar o inevitável. Então tomei aquela que foi para mim a pior decisão da minha vida. E com isto, arrastei para uma guerra, quem eu na verdade mais amava, mas que mentia para mim mesmo que não. E porquê? Porque tinha ciúmes do relacionamento e do amor que elas nutriam pela mãe e porque sempre achei que não o tinham por mim...como eu estava errado!
Que mentiras disse a mim mesmo para tornar o inaceitável, aceitável! Que mentiras deixei que me colocassem na mente, para afastar quem na verdade me via como um herói! Eu sei...eu hoje sei. Eu era o vosso herói!
E agora, resta a dor que eu causei. A indiferença de toda esta realidade que ficou a minha vida e o que eu deixei para trás.
Pedir-vos perdão não chega minhas pequenas, minhas queridas filhas. Eu teria de voltar atrás no tempo e não deixar que a minha mente ficasse parada no único pensamento que nutria, dia após dia e que me arruinou. Eu deveria ter falado com vocês. Eu deveria ter agido, ter tido a coragem suficiente para enfrentar a minha solidão sozinho. Eu deveria ter sido vosso pai até ao fim, mas na verdade, deixei que as mentiras que eu contava a mim mesmo vencessem e no fim, mesmo eu não merecendo, com o vosso amor, provaram-me de que apesar de tudo, da dor que vos causei, e da merda da guerra que vos ia deixar como herança, eu continuava a ser o vosso herói.
E hoje, eu sei, minhas querias filhas, que vocês foram o que de melhor eu tive da vida. Vocês e a vossa mãe. Gostava de poder dizer-vos isto frente a frente, mas já não posso mais e a cobardia levou o melhor de mim.
Não espero o vosso perdão, e peço a Deus, todos os dias, que vos ajude nesta guerra injusta que vos coloquei e que no fim, seja feita justiça. Porque vocês lutam pelo amor da nossa família e do vosso porto de abrigo que eu construi para vocês as três e a vossa mãe. Não foi para mais ninguém! Os outros merdas, os oportunistas, só agem por vingança. E quem semeia ventos...
Filhas, vocês são a minha luz, eu cuidei das três com amor e carinho, dentro do que eu sabia poder vos dar. Lembrem-se de mim, pelas coisas boas e perdoem-me pelas más...se o vosso coração vos permitir!